Marinaleda



Fiquei a saber, já há algum tempo através da Visão (nº 848 de 4 de Junho), que bem perto daqui, a cerca de 270 Km em linha recta, se encontra um reduto socialista - não socialista tipo o governo Sócrates, ou a câmara municipal comunista cá de Beja - antes socialista à moda antiga, tipo viva la revolución!
Trata-se de Marinaleda, município (ou ayuntamiento) andaluz, na vizinha Espanha, onde Che Guevara tem direito a dar o nome a uma rua, erigido em terras de um duque, que foram sucessivamente ocupadas pelos camponeses, até que o governo da comunidade da Andaluzia, farta da situação, decidiu expropriar 1200 ha. dessas, e entrega-las aos revoltosos. Nasceu assim esta localidade, de 2708 habitantes, segundo as estatísticas oficiais, governada desde a sua fundação pelo CUT (Colectivo de Unidad de los Trabajadores), partido de orientação Marxista-Leninista, sob o lema "A terra para quem a trabalha", na qual, citando o artigo, "a propriedade privada é um conceito muito relativo". Veja-se então, "os campos são comunitários; a maior parte das pessoas trabalha para a cooperativa; qualquer decisão (...) é debatida em assembleia do povo; as casas são de autoconstrução". Autoconstrução? Sim, Marinaleda tem uma forma muito peculiar de gerir o urbanismo, o El Mundo chama-lhe "o milagre de ser proprietário por 15 ao mês"; a autarquia cede o terreno, os materiais e o arquitecto, o inquilino entra com a mão-de-obra, sua ou contratada. No final a equação dá 36000€, preço simpático, a ser pago nas pequenas tranches já referidas. Fica-se com uma casa de 90 metros quadrados, mais 100 de pátio, três quartos e terraço na pacatez do campo. Nada mau para um renda de 15 euros, mas sabendo que a escritura só é entregue no final de tudo estar pago, pelas minhas contas demora 200 anos até a casa ser de quem lá realmente vive (ou vivia?). Sempre dá para a descendência, penso eu!
Assim sendo, Marinaleda torna-se inveja de toda a vizinhança: sem hipotecas, sem especulação imobiliária, sem crises financeiras, sem classes sociais, sem polícia, local onde o emprego é praticamente garantido, o voluntariado é mais que comum, aliás, é através deste que funciona boa parte da vila, possuí infantário a preços módicos, escola secundária, pavilhão desportivo, dois campos de futebol, quatro de ténis, um de basquetebol, outro de padel (espécie de mistura entre o ténis e o squash), piscina... Isto torna a terra quase num "paraíso", mas como toda a gente sabe, nem tudo é um mar de rosas, é que o comunismo tem das suas, infelizmente este não passa de uma utopia, por muito bom que ele possa ser, nunca há-de ser algo que possa ser efectivamente aplicado. Isto faz-me lembrar a revolução cubana, muito boas intenções, mas o Fidel prometia eleições livres e justas aquando da formação do movimento 26 de Julho, e até hoje, toda a gente ainda esta à espera delas.
Aos marinalenhos é lhes pedido para abdicarem "voluntariamente" do seu único dia de descanso em prol da comunidade, o que parece um acto nobre, pode pelo outro lado ser também ser considerado exploração fácil, é também "voluntariamente" que se pede ao povo que participe na assembleia, onde se tomam as decisões, porém, quem não se voluntariar pode vir a sofrer represálias, como não conseguir arranjar trabalho na cooperativa, controlada pelo alcaide (presidente da câmara) Sánchez Gordillo, no cargo desde sempre, com maioria absoluta em todos os mandatos. Segundo a oposição, constituída por um único partido, o PSOE, nas palavras de um dos vereadores que conseguiu eleger, "a democracia ainda não chegou aqui" [referindo-se à sua vila], discrimina-se quem não segue a ideologia no poder, bem, o normal, quando se fala do martelo e da foice, restrição das liberdades pessoais. Parece quase a conversa da extrema-direita, "prefiro a segurança à democracia", enquanto que os comunistas dizem o mesmo, mas trocam a palavra segurança pela palavra trabalho. Conduto acho esta situação caricata, e passa a ser um dos sítios a visitar! Cuba também era giro, isto do comunismo deu-lhe aquele charme da decadência, e se por acaso o nosso el comandante Castro morre, perde muita da piada que tem, mas se calhar é mais fácil ir a Marinaleda.

Mais sobre o assunto:
Página oficial do Ayuntamiento de Marinaleda
Artigo no The New York Times
Post no blog Y por qué no?

Sem comentários:

Enviar um comentário